Emergência Humanitária – Surto de fome em África

A ONU declarou ontem situação de fome crítica em duas regiões do sul da Somália, no leste da África. A organização também advertiu que a situação pode se espalhar pelo país nos próximos meses, se a comunidade internacional não fizer doações para mitigar a crise.
As regiões de Bakool e Shabelle foram atingidas pela pior fome em 20 anos e que a crise pode chegar às oito regiões do sul do país. “Ainda não temos os recursos necessários para fornecer alimentação, água potável, abrigo e atendimento médico para milhares de somalis, que passam necessidade.”, referiu a organização.
Cerca de 10 milhões de pessoas são afectadas de alguma forma pela fome no chamado Chifre da África -Somália, Quénia, Etiópia e Djibuti. Em situação extrema estão cerca de 2,8 milhões de somalis.
A crise de fome na Somália é causada pela seca recorrente, que atinge a região há anos, mas teve piora em 2011. Duas estações de chuva não vieram e a produção agrícola foi destruída, levando à alta da inflação.
Para piorar o cenário, conflitos entre milícias no sul do país também dificultam as operações das organizações humanitárias. A área é controlada pelo grupo extremista islâmico Al Shabab, ligado à rede terrorista Al Qaeda, que luta contra o governo interino apoiado pelo Ocidente.

INSEGURANÇA
Desde meados de 2009 até Julho deste ano, o Al Shabab proibia a entrega de ajuda alimentar humanitária no sul da Somália, em partes do centro do país e na capital, Mogadício.
Alegavam que o auxílio internacional gerava dependência institucional, mas agora suspenderam a proibição com a piora da crise. “Definitivamente, os conflitos e a insegurança são o maior desafio para nossa actuação na Somália. Na Somália, as instalações hospitalares são praticamente inexistentes, é uma área muito carente. A situação de saúde da população é precária”, disse o porta-voz do grupo. Os EUA disseram que enviarão ajuda para as áreas em crise, mas não querem que o Al Shabab interfira na distribuição dos alimentos. O grupo está na lista de organizações terroristas dos EUA.

Mogadíscio enquanto campos registam mortes
Deslocados pela fome e pelos conflitos, mais de 20 mil pessoas desesperadas procuraram refúgio na capital Somali, Mogadíscio, ainda este mês. Milhares de pessoas, algumas à beira da morte, continuam a fugir para a região.

Os refugiados somalis recém-chegados ao campo de Kobe, na Etiópia, na zona de Dollo Ado, estão com frequência desnutridos e exaustos. Diariamente, uma média de mil pessoas chegam a Mogadíscio procurando ajuda. A maioria vem de áreas atingidas pela fome, como o sul de Shabelle e Bakool. Organizações estão a tentar levar a ajuda para as pessoas da Somália, evitando que elas tenham que realizar uma difícil jornada até o Quênia ou a Etiópia. Levados ao desespero, muitos somalis ainda estão a fazer essa viagem. O campo de Dadaab, no Quênia, está a receber cerca de 1,5 mil novos refugiados somalis diariamente, enquanto centenas chegam todos os dias à área de Dollo Ado, na Etiópia.
Mais da metade deles vem das regiões de Gedo, Bay e Bakool, no centro-sul da Somália. Eles dizem que eram pastores e fazendeiros que fugiram da persistente seca, assim como da violência que os forçou a abandonar suas terras e gado.

Emergência nutricional é maior entre crianças
Muitos refugiados estão a chegar em péssimas condições devido a meses de privação e à longa viagem em busca de ajuda. “Esta é uma situação de emergência nutricional”, disse Fleming, observando que 15 mortes por desnutrição. Crianças menores de cinco anos são as mais vulneráveis, mas o ACNUR também está preocupada com a desnutrição entre os refugiados com idade entre 5 e 18 anos. Todos os recém-chegados aos campos são registados e passam por exames de saúde. Os desnutridos e as pessoas com complicações médicas são encaminhadas para clínicas, inclusive para uma secção de nutrição terapêutica.
Em Dollo Ado, centro de trânsito na Etiópia, o ACNUR está a fornecer duas refeições quentes por dia para mais de 11 mil recém-chegados que vivem em tendas improvisadas. O número de chegadas está a superar a capacidade de acolhimento desta área seca e remota. O campo de Kobe, aberto no mês passado, já está lotado, com mais de 25 mil refugiados. Um novo campo, Hilaweyn, está quase concluído e receberá até 60 mil pessoas. O acolher de refugiados neste campo está previsto começar em semanas.